Não és Especial!

“Não és especial!”
Há cerca de um ano e meio que a minha vida mudou… Saí da minha zona de conforto e fui viver num país bem diferente de Portugal. Não vou estabelecer comparações, nem iniciar uma conversa de vantagens e desvantagens. Vou partilhar um pouco do que senti e que me fez chegar a uma das conclusões mais importantes da minha vida.

Dois meses depois de estar a morar na Dinamarca e já a sentir que era aqui a minha nova casa, comecei a sentir-me “estranha”. Uma questão começou a surgir com alguma recorrência na minha cabeça.

Mas antes de vos dizer que questão era essa, deixem-me partilhar como me sentia por aqui. Sentia que vivia num mundo à parte. Sentia que estava num paraíso… num pedaço de céu na terra. Melhor do que aquilo que tinha idealizado no passado. Melhor do que alguma vez imaginei, embora totalmente enquadrado no estilo de vida que idealizava alcançar um dia. Só não pensei ser possível acontecer com 36 anos de idade.

Pensar que tinha alcançado o meu ideal de vida aos 36 anos fez-me ficar com muito medo. Subitamente, um medo que se apoderava de mim. E a tal questão surgiu: “E agora? Se aos 36 anos alcanço o meu ideal de vida, o que vem a seguir? O que mais posso querer concretizar?

Parece tão simples ou até ridículo não é? Mas pensem bem. Quantos de vocês já não ficaram com medo de viver plenamente alguma coisa muito boa com medo que isso um dia acabasse ou que pudessem, por outro lado, perder algo numa outra área da vida? Não viver um amor plenamente… Não arriscar mudar de trabalho porque as condições são “boas demais”… Incrível como tantas crenças bloqueadoras pairam dentro de nós.

Bem, dias tive em que disse a mim mesma: isto não é real. Depois disse: Isto é real sim… é possível viver como um dia imaginei. A seguir veio o pensamento: Se isto é real e é o que estou a viver, então o que mais tenho para fazer? Entrei em pânico… por uns momentos!

Admito, pela primeira vez que, no meio de reflexões, me apercebi que no meu interior estava a ideia de que eu era de alguma forma ESPECIAL. Especial por ter a oportunidade de viver num local, para mim, encantado. Uma palavra que ganhou eco e que teimava em reentrar na minha mente de tantas vezes que a ouvi de alguém.

Andei numa verdadeira montanha russa dentro de mim mesma. Isto porque, sentir que era especial, fez-me criar um peso enorme às costas. O peso da responsabilidade, mas de uma responsabilidade que eu própria não conseguia identificar ou definir. Por outro lado, o pensamento agonizante de que viver o ideal de vida aos 36 anos poderia ser sinónimo de perder algo, nem que fosse o entusiasmo de ter algo porque “lutar”. Foi um mês muito intenso e muito estranho para mim em Agosto de 2017.

O meu lado otimista e que procura ver sempre a melhor perspetiva em cada situação procurava pela tal visão que me iria tirar daquele estado agridoce de viver na Dinamarca. Até que… olhei à minha volta e vi que todos os habitantes da Dinamarca têm exatamente as mesmas oportunidades do que eu. Ou melhor, eu passei a ter as mesmas oportunidades que tantas outras pessoas. A possibilidade de viver aquele ideal de vida, porque aquele que é o meu ideal de vida é a filosofia de vida dos Dinamarqueses.

Cheguei, finalmente, à conclusão mais preciosa da minha vida. “EU NÃO SOU ESPECIAL”. E tomar consciência que não sou especial e senti-lo de verdade com o meu coração, fez-me ser tão mais feliz, tão mais eu e tão mais leve. Não tenho palavras para descrever o quanto feliz fiquei por perceber que não sou especial.

Isto fez-me refletir, ainda, em todas aquelas crianças que por um motivo ou outro são apelidadas de especiais, são tratadas como especiais e são vistas como especiais. Fez-me perceber que temos agido erradamente ao colocar o “rótulo” de especial em tantas crianças, mesmo que com a melhor das intenções. A pressão por agirem de acordo com o que é ser especial, seja isso o que for, coloca-lhes peso às costas e limita-as na sua autoexpressão mais natural e pura.

Na verdade, ninguém é especial porque todos somos especiais na nossa forma natural de ser.

Isto libertou-me verdadeiramente e espero com isso libertar também os meus filhos… Para que possam ser eles, assumindo a forma especial de ser que desejarem.

Quanto a mim… Depois de perceber que Não Sou Especial, percebi também que viver o meu ideal de vida a partir dos 36 anos, me permite mostrar mais rapidamente e de forma pragmática e realista, como outros o podem alcançar. Todo o conhecimento teórico reunido à experiência prática faz-me ficar mais rica a cada dia.
Por isso, deixem-me dar-vos um conselho:
– Não se boicotem por acharem que algo é bom demais para ser verdade.
– Não se impeçam de ser mais felizes e de viverem aquilo que em sonhos idealizam.
– Acreditem que tudo na vida é possível, se soubermos dar-lhe o valor merecido.
– Permitam-se sair da vossa zona de conforto, porque é lá que estão os vossos sonhos e objetivos de vida.
– A idade é apenas um número que terá cada vez menor importância quanto mais exercitarem a mente, o corpo e libertarem o espírito.
Sejam e vivam!

Marta P. Rodrigues

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